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Sabiá-laranjeira e reflexões sobre conflitos e percepções no Parque Areião

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Sabiá-laranjeira e reflexões sobre conflitos e percepções no Parque Areião

Sentado em um banco do Parque Areião Washington Novaes, observei um concerto farfalhante executado pelo vento que soprava suavemente as folhas dos bambuzais. Um sabiá-laranjeira pousou primeiro no teto de um automóvel e, em seguida, com a solenidade de quem reivindica seu território, pousou no vidro lateral dianteiro, próximo ao retrovisor.


Logo apareceram três aves: o sabiá propriamente dito e duas imagens refletidas no vidro e no retrovisor. Dois intrusos com a mesma pose insolente, que ora atacava um, ora o outro. Quis dizer ao passarinho que seus inimigos eram apenas moinhos, não gigantes, e que, em vez de confrontá-los, poderia estar cantando.


Porém, lembrei que os sabiás iniciam sua cantoria em setembro, com a chegada da primavera, durante a temporada reprodutiva, quando o canto serve para seduzir a fêmea.


Os passarinhos veem no próprio reflexo um intruso invadindo seu território e partem para o confronto. Nós, humanos, somos especialistas em transformar sombras em gigantes e coincidências em provas de perseguição.


Conheço alguém que interpreta dificuldades financeiras como um teste divino de fé, esperando um salvador como Daniel Vorcaro, figura controversa na política. Pensei em falar sobre o Deus de Baruch Spinoza, um Deus sem ameaças ou recompensas, que não se encontra em templos nem exige dízimos, mas se revela na natureza, no vento e na chuva.


Muitas pessoas veem desprezo onde há apenas distração, interpretam silêncios como rejeição e transformam pequenos desentendimentos em hostilidades inexistentes. Assim, constroem conflitos sobre bases frágeis, até que a imaginação parece mais real que os fatos.


O sabiá bicava seus rivais refletidos, sem perceber que eles dependiam dele para existir. Movido pela dor de tanto confrontar seus próprios gigantes, ele finalmente voou e pousou em um galho, enquanto o vidro permaneceu imóvel e indiferente.


Pensei que a paz começa quando deixamos de alimentar fantasmas internos e passamos a enxergar o mundo sem as distorções do medo e da suspeita. A comédia humana é vasta e nada é eterno; até nossos delírios de permanência cedem ao movimento inexorável do tempo, que devora séculos e homens.




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