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Saara: história viva de imigração e comércio tradicional no Rio de Janeiro

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Saara: história viva de imigração e comércio tradicional no Rio de Janeiro

Em dezembro, quando o Natal domina as lojas, ou nos dias que antecedem o Carnaval, com fantasias, brilhos, plumas e adereços que parecem escorrer das vitrines para a calçada, poucos imaginam que esse grande mercado popular guarda uma das mais ricas histórias de imigração, resistência urbana e amor ao comércio tradicional da cidade.


A pesquisadora Neiva Vieira da Cunha, da Uerj e do LeMetro/IFCS-UFRJ, estudou o Saara como uma das praças de mercado popular mais tradicionais do Rio, marcada pela relação entre fluxos migratórios, atividades comerciais e identidades culturais. O Saara, um dos lugares mais cariocas da cidade, nasceu em grande parte pelas mãos de estrangeiros. Sírios, libaneses, judeus sefaraditas e ashquenazitas, portugueses, espanhóis, gregos, armênios e, posteriormente, comerciantes asiáticos deram ao local uma fisionomia singular, trazendo seus costumes, redes de parentesco, modos de vender, especialidades, formas de negociar e esperanças.


O resultado foi um bazar mediterrâneo, oriental e carioca ao mesmo tempo, transplantado para o miolo histórico da cidade, entre a Avenida Presidente Vargas, a Rua Buenos Aires, a Rua dos Andradas e a Praça da República. Muito antes do nome Saara ser conhecido, a Rua da Alfândega já era uma via fundamental para a vida econômica do Rio. Sua proximidade com o porto, especialmente com o antigo Cais Pharoux, na atual Praça XV, tornava a região estratégica para o desembarque, armazenamento e distribuição de mercadorias, concentrando firmas atacadistas, depósitos de bebidas, gêneros alimentícios, tecidos e produtos de armarinho.


No fim do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, imigrantes sírios e libaneses começaram a chegar, fugindo das dificuldades políticas e econômicas do Império Otomano. Embora desembarcassem com passaportes turcos, eram em sua maioria sírios e libaneses, muitos cristãos ortodoxos ou maronitas. Eles se instalaram inicialmente na Rua da Alfândega e arredores da Praça da República, criando redes de comércio fundamentais para a economia popular da cidade. Outros grupos, como judeus sefaraditas do Oriente Médio e ashquenazitas da Europa Central e Oriental, especialmente da Polônia, Rússia e Romênia, estabeleceram-se na Praça Onze e na Rua Senhor dos Passos.


Apesar das diferenças culturais e linguísticas, o Centro do Rio, com sua vocação histórica para acolher, misturar e transformar, uniu esses grupos pela gramática comum do comércio. Muitos começaram vendendo mercadorias de porta em porta, carregando malas e pequenos estoques de botões, fitas, gravatas, perfumes, tecidos, linhas e agulhas. Conhecidos como "turcos da prestação" e "judeus da prestação", vendiam fiado, parcelavam, negociavam renda do freguês e criavam laços pessoais com a clientela, popularizando o acesso a bens manufaturados e introduzindo práticas comerciais que marcaram a vida urbana brasileira.


O casario eclético de dois e três pavimentos, as fachadas estreitas, os sobrados contíguos, as lojas abertas diretamente para o passeio e as ruas de pedestres criam uma intimidade rara entre o espaço público e o privado. Mercadorias aparecem em balcões móveis, vitrines improvisadas, cestos, araras e mostruários, enquanto as vozes dos vendedores se misturam ao som ambiente, aos anúncios, ao burburinho dos compradores e às conversas rápidas.




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