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Pentecostes no Rio de Janeiro: da festa popular no Campo de Santana à celebração silenciosa nas igrejas

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Pentecostes no Rio de Janeiro: da festa popular no Campo de Santana à celebração silenciosa nas igrejas

Durante o século XIX, o Rio de Janeiro vivenciou uma das mais expressivas manifestações religiosas e populares de sua história: a Festa do Divino Espírito Santo no Campo de Santana. Organizada pela antiga Irmandade de Santana, a celebração transbordava dos altares para as ruas, com folias, barracas, música, bandeiras, coroações simbólicas e uma multidão que transformava a área em um dos grandes palcos da vida carioca.


O Campo de Santana, antes de se tornar a Praça da República e palco de eventos políticos e militares, nasceu marcado pelo sagrado. A capela dedicada a Sant'Ana foi erguida em 1735 em uma região ainda periférica e pouco incorporada à cidade. Ali atuavam irmandades como as de São Domingos e Santana, que não eram apenas associações devocionais, mas verdadeiras estruturas de sociabilidade, assistência, identidade e presença pública.


Nesse espaço floresceu o chamado Império do Divino Espírito Santo, um pavilhão de pedra e cal com capelinha e plataforma onde o Imperador do Divino recebia homenagens durante as festas. A celebração, promovida pela Irmandade de Santana, chegou a ser considerada a festa religiosa mais importante da época, podendo se estender de maio a julho. O centro litúrgico era Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa, mas a preparação começava antes, com o levantamento do mastro com a pomba do Espírito Santo, a coroação de um 'imperador', geralmente uma criança, e as folias que percorriam a cidade recolhendo doações.


A Festa do Divino Espírito Santo chamou a atenção de artistas estrangeiros, como Jean-Baptiste Debret, que registrou em 1826 a coleta de esmolas para a festa, mostrando músicos, crianças, símbolos religiosos e a teatralidade pública da devoção popular. No Campo de Santana, a celebração misturava-se à vida da Corte, com a presença dos vice-reis na coroação do Imperador do Divino, vestimentas requintadas, música e bandeiras, criando um pequeno reino simbólico do Espírito Santo que refletia a identidade católica, portuguesa, tropical e festiva da cidade.


A chegada da Corte portuguesa em 1808 mudou o destino do Campo de Santana. O antigo Império da Irmandade de Santana foi demolido em 1811 para dar lugar a instalações militares. A Irmandade resistiu, mas passou a erguer um Império provisório a cada festa do Divino.


Com o avanço da cidade oficial, vieram o quartel, o chafariz, o Senado, a Casa da Moeda, a estação ferroviária e a República. A igreja de Santana foi demolida em 1855 para a expansão ferroviária e transferida para a Rua de Santana. O espaço que abrigava o Império do Divino tornou-se cada vez mais administrativo, militar, ferroviário e político, reduzindo a festa a celebrações internas nas igrejas.


Pentecostes no Rio de Janeiro representa, assim, não apenas uma data do calendário católico, mas uma chave para compreender um passado em que a cidade era marcada pelas irmandades, procissões, folias, mastros, pombas do Divino, sinos e multidões que rezavam e festejavam nas ruas, ocupando espaços públicos com o sagrado de forma visível e sonora.




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